Pois corria o ano de 1616 quando meio milhar de piratas caiu sobre a ilha, nela permanecendo durante oito dias. Ninguém ousou resistir-lhes, e todos os que puderam correram a esconder-se. Muitos deles na Furna de Sant’Ana. Muitos deles? Sempre eram umas centenas de velhos, mulheres e crianças, que ficaram quase todo o tempo às escuras, silenciosos, trementes, à espera do pior. Às tantas, em data não registada, os que ali oravam, aflitos, escutaram uma barulheira tremenda. Alguns espreitaram e viram um grande cortejo de piratas a cavalo e a pé, rufando tambores e tocando cornetas. E entre os refugiados ouviu-se a prece de uma velhinha:
- Senhora Santa Maria dos Anjos, que sois senhora desta ilha, salvai-nos!
E todos ajoelharam porque julgavam ser aquele o último dia das suas pobres vidas. Ainda barulhavam a pouca distância os piratas quando, ao som da prece, tudo voltou ao silêncio.
Como um manto azul, a ilha ficou sem um ruído. O Sol deu uma volta no espaço e lançou os seus raios até ao cabo da Furna de Sant’Ana. Então, do alto de uma árvore, para onde acabara de subir, um rapazote, olhando o mar, gritou:
- Estamos salvos! Saiam todos!
Os barcos dos piratas estavam na linha do horizonte. Haviam abandonado a ilha.
- Nossa Senhora salvou-nos!
Pois valha falar de uma outra gruta, situada entre as duas fajãs referidas por Gaspar Frutuoso no seu Saudades da Terra. Tinha a boca cerrada com areia e cal, do mesmo aparelho que os castelos que contornam Santa Maria. A lenda diz que aí dentro se guardou por séculos um tesouro de piratas mouros, mas havia também quem receasse o que lá poderia encontrar-se.
Porém, como se cumprira a Restauração, era voz corrente que se tratava antes de um tesouro dos espanhóis, que o não puderam levar na saída precipitada para os seus territórios, já que dali foram corridos. Tesouro ou armas e munições, deixando escrito nas paredes da gruta, tal como o haviam feito em diversos castelos, estes dizeres mal escritos:
CASTELHANO SE VAI EMBORA
GUARDA LA RISA PRA QUANDO LA CHORA.