Os principais atractivos da zona de Santana, incluindo os Anjos, eram a facilidade de acesso ao mar e a ribeira onde corre água durante todo o ano, e que recebeu aquele nome porque os terrenos por onde passa pertenciam a Gonçalo Velho. Todos os mapas actuais a trazem como ribeira de Santana, mas lá ela tem três nomes diferentes deste, sendo na parte final curiosamente chamada ribeira do Rei.
No entanto, por ali o mar tanto abre as portas da terra a quem vem por bem como a quem chega por mal. E os piratas e corsários várias vezes se aproveitaram dessa franqueza, ao ponto de, na sacristia da igrejinha dos Anjos, talvez a primeira que houve nos Açores, ter sido guardado ao longo dos séculos um chicote com que eles atormentaram alguns infelizes habitantes do lugar. E, para memória das gentes, foi feita a seguinte inscrição:
“Na noite do primeiro para o segundo dia de Setembro de 1675, deram os mouros um assalto neste sítio desta Ermida a descuido das guardas, entraram pelo porto cativaram onze pessoas, entre mulheres e meninos e com este chicote as espancaram o qual se pôs aqui para memória do sucesso para que esteja pregando que se Deus logo levantou o castigo foi talvez por não envolver mais inocentes; todavia deixou ficar em terra o açoute com que castigou. Nesta Ermida não tocaram, passando de todo por junto dela; como também no ano de 1616 saquearam toda a ilha é tradição que a não viram vendo-os a todos quem dentro estava.”
Desse episódio de pirataria ficou a lenda de um canavial que teria surgido de súbito, não permitindo aos mouros verem a ermida. Que, segundo outra lenda, houve quem quisesse mudar para o sítio que passou a chamar-se Cruz dos Anjos. Todos os materiais que, durante o dia, eram levados para ali, à noite voltavam para o lugar onde a pequena igreja haveria de ficar para sempre. E terá ficado também a palavra “bei”, como exclamação de grande espanto, com frequência acompanhada da invocação de Santa Bárbara, protectora contra raios e calamidades. Seria com esse grito que muitas pessoas reagiam ao rebate que anunciava piratas na costa, pois “bei” era título de chefe na Tunísia. Curiosamente, em iguais circunstâncias a mesma palavra se diz na Graciosa.