alt

 

História do Culto

A história do Culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, na ilha de São Miguel, começa no Convento da Caloura, em Água de Pau, concelho de Lagoa.

Reza a memória que foi nesse lugar que se erigiu o primeiro convento de religiosas na ilha, cuja fundação se deveu, principalmente, à piedade das filhas de Jorge da Mota, de Vila Franca do Campo.

Mas, para que tal comunidade religiosa fosse estabelecida como devia, foi necessário que alguém se deslocasse a Roma, impetrar a respectiva Bula Apostólica. Duas das suas religiosas largaram, então, de São Miguel, a caminho da cidade eterna, onde solicitaram ao Papa o desejado documento. Tão bem se desempenharam desta missão que o Sumo Pontífice não só lhes passou a ambicionada bula como, ainda, lhes ofereceu uma imagem do “Ecce Homo”.

De regresso a vale de Cabaços, a singular imagem foi posta num nicho onde se conservou por poucos anos. Porque o lugar era ermo e muito exposto às incursões dos piratas, o pequeno mosteiro ficou, certo dia, deserto, uma vez que, parte das religiosas seguiu para Santo André, em Vila Franca do Campo, e a outra parte se encaminhou para Ponta Delgada, para o Mosteiro da Esperança, acabado de fundar pela viúva do capitão donatário, Rui Gonçalves da Câmara.

A imagem do Senhor Santo Cristo não ficou esquecida em vale de Cabaços, porque a religiosa galega, Madre Inês de Santa Iria, a trouxe para Ponta Delgada.

Convento da Esperança

Com o Bispo D. António Meireles, na terceira década do século passado, vieram as Visitandinas, a que sucedeu a Congregação de São José de Cluny. Constituído o seu colégio, conforme risco do arquitecto micaelense João Rebelo, na rua Agostinho Pacheco, em Ponta Delgada, coube às religiosas de Maria Imaculada ocupar o convento, em cuja recuperação trabalharam como operárias. Tinham as Clunicenses confiado à Madre Maria do Carmo o cuidado da Capela do Santo Cristo, dizendo a sua superiora que ninguém melhor do que uma açoriana saberia ocupar-se daquele recinto. A Madre Maria do Carmo era micaelense, sobrinha de Mariano Victor Cabral, notável redactor do “Diário dos Açores”.

As religiosas de Maria Imaculada, que ocupam, actualmente, o lugar das antigas Clarissas, ali presentes de 1541 a 1894, têm sido, extremamente, atentas ao significado espiritual do convento e têm dado aos reitores do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres uma excelente cooperação.

Em Abril de 1959, o então Bispo de Angra, D. Manuel Afonso de Carvalho, declarou Santuário Diocesano a Igreja do Santo Cristo.

No ano de 1723, havia no Convento da Esperança, 102 freiras e 57 noviças, pupilas e servas. Em 1821, a população do mosteiro era de 108 senhoras: 42 freiras professas, 36 seculares, sem dispensa, e 30 fâmulas. Em 1865, havia 72 senhoras, sendo nove religiosas da Esperança, 11 do Convento da Conceição, uma do Convento de S. João, uma do Convento do Bom Jesus da Ribeira Grande, uma do Convento de Santo André de Vila Franca, 16 meninas que serviam no coro, uma secular, duas senhoras que não faziam serviço, vinte e uma servas da comunidade e onze servas particulares.

As Religiosas de Maria Imaculada foram o quarto instituto a ocupar o Convento da Esperança. A última religiosa clarissa, a Madre Abadessa Maria Vicência Cabral, faleceu em Dezembro de 1894. Já então, haviam recolhidas que vestiam hábito e continuavam os usos conventuais, não obstante os reparos da imprensa periódica, ainda presa aos decretos anti monásticos de Maio de 1832.

O Mosteiro de Nossa Senhora da Esperança foi o primeiro convento de freiras que se erigiu em Ponta Delgada. A sua construção foi iniciada em vida do seu fundador, o Capitão Donatário Rui Gonçalves da Câmara que, depois do terramoto de 20 de Outubro de 1522, que arrasou Vila Franca do Campo, passou a residir em Ponta Delgada que já era vila, desde 1499.

Sua mulher, D. Filipa Coutinho, coadjuvada por vários fidalgos, conseguiu concluir as obras, interrompidas ao tempo da morte do fundador, ocorrida em 20 de Outubro de 1535.

Foi em 23 de Abril de 1540, que as freiras deixaram o convento da Caloura, trazendo a Imagem do Senhor Santo Cristo, e vieram habitar o Mosteiro da Esperança.

Na segunda metade do século XVII, o Convento da Esperança começou a beneficiar de grandes melhoramentos: os célebres azulejos que ainda hoje, se encontram no coro baixo, são da autoria de António de Oliveira Bernardes; a talha da capela do coro baixo é atribuída a Miguel Romeiro que, em sonhos, a idealizara; a decoração do tecto da igreja e da primitiva talha da capela-mor e dos altares laterais foi realizada, em 1658, pelo pintor micaelense Manuel Pinheiro Moreira, Irmão da Ordem Terceira de São Francisco, em Ponta Delgada, e professor de pintura de suas próprias filhas.

Madre Teresa da Anunciada

Madre Teresa da Anunciada nasceu e foi baptizada no dia 25 de Novembro de 1658, na freguesia de São Pedro, da então, vila da Ribeira Grande, na ilha de São Miguel.

Entrou para o Convento da Esperança, onde iniciou o seu noviciado, em 19 de Novembro de 1681, vindo a fazer os votos solenes, em 23 de Julho de 1683.

Morreu, com fama de santidade, em 16 de Maio de 1738.

O prelado da Diocese de Angra deu início ao processo jurídico sobre a Vida e Virtudes de Madre Teresa, em 5 de Maio de 1738. Nnesse mesmo ano, em 6 de Agosto, o Provincial dos Franciscanos nos Açores deu início ao processo jurídico da Vida e Virtudes de Madre Teresa, feito pela Ordem de São Francisco.

Há poucos anos, circulou, entre a população açoriana, um abaixo-assinado, dirigido ao Santo Padre, do seguinte teor:

“O Povo dos Açores tem um grande amor e devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. Amor e devoção que ultrapassaram em muito as fronteiras da Região, porquanto em todos os países da diáspora açoriana se celebram festas em honra do Senhor Santo Cristo e são muitos milhares os que, de quase todo o mundo, se deslocam todos os anos, em peregrinação de súplica ou acção de graças ao Senhor.

Tudo começou com uma religiosa clarissa, Madre Teresa da Anunciada que, no silêncio do convento, recebeu um apelo especial para honrar e desagravar o Senhor na Sua Flagelação representado na imagem do Ecce Homo.

A partir, sobretudo de 1700, o culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres tomou tal grandeza que, desde então, nunca mais esfriou. As graças e os milagres têm sido uma constante. Madre Teresa da Anunciada foi um instrumento para ajudar a recordar aos homens que Deus é solidário com o Seu povo.

Monja de vida austera e intrépida na sua fé, pela oração intensa, pelo seu amor a Jesus e à Eucaristia e pela sua devoção a Maria Santíssima, é tida como modelo de santidade e considerada a grande intercessora junto do Senhor que tanto amou.

Por isso, junto a minha voz à de muitos sacerdotes e fiéis, implorando a Vossa Santidade seja concedido o “nihil obstat” para a organização do Processo de Beatificação da Serva de Deus a fim de ser elevada à honra dos altares, assim o espero”.

Os restos mortais de Madre Teresa conservam-se numa pequena urna que se guarda na Capela do Senhor Santo Cristo, no Mosteiro da Esperança.

Em fins do século XIX, ou começos do século passado, um dos bispos de Angra mandou abrir a caixa, que ainda hoje, se conserva no coro baixo do Convento da Esperança, e que contém os despojos mortais de Madre Teresa da Anunciada.

Removida que foi a respectiva cobertura, logo se evolou um magnífico e inexplicável aroma. Poderá alguém, mais exigente, não querer aceitar o facto. O certo é, porém, que da vida da Madre Teresa se evola um perfume que resiste a todas as inconsequências dos homens, a todos os desvios de alguns devotos, certamente sinceros, mas pouco esclarecidos.

O pai de Teresa de Jesus (mais tarde, Teresa da Anunciada) foi Jerónimo Ledo de Paiva, nascido na Ribeira Seca da Ribeira Grande, em Julho de 1601. A mãe foi Maria do Rego Quintanilha, baptizada na paroquial de S. Jorge, da Vila do Nordeste, em 11 de Agosto de 1614.

A prolongada doença de Jerónimo Ledo de Paiva, que acabou por vitimá-lo, numa sexta-feira, 24 de Janeiro de 1666, foi a grande desgraça que se abateu sobre a família, de treze filhos, sendo Teresa a mais nova. Foi sua irmã, Joana de Santo António, que fez os impossíveis até conseguir que Teresa de Jesus entrasse no Convento de Nossa Senhora da Esperança.

Quando Teresa chegou à idade de aprender a ler, sucedeu que veio por essa ocasião do Brasil, seu irmão, frei Simão do Rosário, para descansar alguns meses e restabelecer-se das extenuantes missões pelo sertão brasileiro. Ensinou a ler as irmãs mais moças e Teresa deliciava-se com a leitura da vida de santos, em especial as Meditações de Santa Brígida.

Quando chegou o dia da profissão de Teresa, a procissão de ingresso que se organizou com luzido acompanhamento, saiu da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, do Convento dos Franciscanos, para a de Nossa Senhora da Esperança. Sobressaía a figura de Teresa de Jesus que, nesse momento, já estava crismada com o nome que a devia celebrizar: Teresa da Anunciada.

A família, os convidados e o conjunto musical, acompanhados de alegre repicar de sinos das torres de várias igrejas circunvizinhas, festejavam o acontecimento.

Quando Teresa entrou para o Mosteiro da Esperança, estava no coro baixo, a um lado, num pequeno altar, uma imagem do Senhor, no passo do Ecce Homo, que tinha um registo a tapar a abertura do peito, pois outrora servira de sacrário. A pedido de sua irmã, Joana de Santo António, Teresa conseguiu um novo altar para a Imagem que foi a encarnar. Pediu a Madre Jerónima do Sacramento, do Convento de Santo André de Ponta Delgada, que fizesse uma cana de flores de seda, para ornar o Senhor quando regressasse ao seu novo altar.

A Imagem do Senhor Santo Cristo estava no seu novo altar, mas o tecto do coro era formado pelo soalho do coro alto que, além de velho, tinha muitas frinchas que deixavam passar o pó, além do barulho que se sentia quando se andava no coro alto. Teresa conseguiu que fosse construída uma capela e, a seu pedido, D. Pedro II, por alvará de 2 de Setembro de 1700, concedeu uma tença de doze mil réis, para manter acesa, dia e noite, uma lâmpada de azeite diante do altar do Senhor Santo Cristo.

Nenhuma dessas capelas chegou aos nossos dias, mas, sim, uma terceira, mandada construir, posteriormente, e que foi benzida a 22 de Março de 1771.

Foi por aquela época que Madre Teresa da Anunciada desejou que a Imagem do Senhor saísse em procissão, passando por todas as igrejas e conventos da cidade.

Por intermédio do Conde da Ribeira Grande, obteve licença do prelado, D. Frei António de Pádua, e a primeira procissão do Senhor Santo Cristo realizou-se a 11 de Abril de 1700, segundo o investigador Urbano de Mendonça Dias. (O investigador mais recente, Luciano Mota Vieira, invocou pesquisas que fazem recuar para 1698 a primeira procissão. O cortejo repetiu-se em Abril de 1700 e foi esta data que é apontada como sendo a da primeira procissão).

A devoção que esta procissão despertou foi tal que nunca mais deixou de se realizar, salvo uma ou outra vez, por efeito de mau tempo. É a mais antiga devoção que se realiza em terras portuguesas.

Madre Teresa parece que não teve velhice, tal a energia que manteve até ao fim da vida. A última doença prostrou-a, aceleradamente. Os jejuns, os cilícios, as penitências e uma cama feita com uma enxerga de palha sobre ramos, parece que nunca lhe tiraram as forças do corpo e lhe fortificaram as da alma.

A doença que a vitimou não foi longa. Pressentiu a morte que chegou ao amanhecer de sexta-feira, dia 16 de Maio de 1738. Teresa ia completar, em Novembro seguinte, 80 anos de idade. A devoção que Teresa da Anunciada tão intensamente sentiu por Cristo no passo do Ecce Homo foi dando, através dos séculos, novas ressonâncias ao culto do Senhor, a ponto de ter chegado aos nossos dias, com notável influência na espiritualidade do nosso Povo.

A 16 de Maio de 1954, foi colocada uma lápide comemorativa na casa onde nasceu a Madre Teresa, sita à rua do Torninho, na Ribeira Seca.

A 12 de Maio de 1963, foi inaugurado, junto à igreja da Ribeira Seca, um busto da Madre Teresa, da autoria do escultor Numídico Bessone.

Em Dezembro de 1992, Madre Teresa da Anunciada foi, oficialmente, designada patrona da escola básica da Ribeira Seca.

A grande estátua da Madre Teresa, junto ao Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, foi inaugurada em 26 de Maio de 1984.

A Primeira Procissão

No ano de 1700, a ilha de São Miguel foi abalada por fortes e repetidos tremores de terra. Duravam estes há já vários dias, quando a Mesa da Misericórdia e grande parte da nobreza da cidade, verificando que os terramotos não cessavam, resolveram ir à portaria do Mosteiro da Esperança para levarem, em procissão, a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Ao princípio da tarde desse dia 11 de Abril de 1700, juntaram-se as confrarias e as comunidades religiosas. Concorreu, igualmente, toda a nobreza e inumerável multidão que, com viva fé, confiava se aplacaria a indignação divina com vista da santa imagem.

Caminhava já a procissão, em que todos iam descalços, e logo que a veneranda imagem se deixou ver na portaria, foi tão grande a comoção em todos que a traduziram em lágrimas e suspiros, testemunhos irrefragáveis da contrição dos corações.

Levaram o andor do Santo Cristo as pessoas mais qualificadas em nobreza. Andando a procissão, ia a veneranda imagem entrando em todas as igrejas onde, em concertados coros, Lhe cantavam os salmos “Miserere mei Deus”.

Saindo da Igreja dos Jesuítas, e caminhando para a das religiosas de Santo André, não obstante toda a boa segurança e a cautela com que levavam a santa imagem, com assombro e admiração de todos, caiu esta fora do andor e deu em terra. Foi esta queda misteriosa, porque não caiu a imagem por algum dos lados do andor, como era natural, senão, pela parte superior do docel.

O povo ficou aflito com sucesso tão estranho. Uns feriram os peitos com as pedras; outros, pondo a boca em terra, que julgavam santificada com o contacto da santa imagem, pediam a Deus misericórdia; estes, tomando os instrumentos de penitência, davam sobre si rijos e desapiedados golpes, regando a terra com o sangue das veias; aqueles, publicavam em alta voz as suas culpas, como causas da indignação do Senhor, e todos, com clamores e enternecidos suspiros, pediam a Deus que se suspendesse as demonstrações da sua justa vingança.

Verificaram, então, que a santa imagem não experimentara com a queda, dano considerável, pois somente se observou, no braço direito, uma contusão.

A imagem foi lavada e limpa no Convento de Santo André e, colocada outra vez, no andor, com a maior segurança, continuou a procissão, na qual as lágrimas e soluços do povo aflito embargavam as preces, até que, bem de noite, se recolheu no Convento da Esperança.

E, a cólera divina se aplacou.

 

ISSCM