Ainda nos princípios deste século, no Pico falava-se muito de labregos, uma espécie de duendes que viviam durante uma parte do ano no mar e outra no mato. Na noite do dia dois de Fevereiro ou de Nossa Senhora das Candeias, os labregos deixavam o mar para só voltarem seis meses depois.
Todas as pessoas do Pico sabiam que nessa noite não se devia ir ao mar, nem à costa, nem andar de noite, nem deixar as portas das casas abertas. Todos se chegavam cedo para casa, trancavam bem as portas e protegiam-se, comendo alho para afugentar os labregos.
Um homem da Calheta, ou porque tinha muita necessidade de peixe em casa, que era o conduto da maior parte do ano, ou porque era daqueles que não têm medo de nada e escarnecem de tudo, foi pescar de noite para a costa. A noite estava negra, acendeu o lampião para pôr a isca. Atirou a linha ao mar, apagou a luz e sentou-se, segurando o trocho com uma perna. Ali ficou, fumando, à espera que sentisse peixe.
A certa altura, começou a ouvir uma voz rouca que disse:
— Atira ao mar, atira.
Logo outra voz respondeu:
— Não, que ele comeu alho, bugalho e bolo do borralho.
O homem ficou todo arrepiado, levantou o trocho, embrulhou à pressa a linha, pôs a cana às costas e correu pra casa, um pé não apanhava o outro. Ainda lhe parecia mentira quando se achou deitado na cama, com a porta bem ferrolhada.
No dia seguinte o caso espalhou-se e todos diziam que tinham sido labregos o que ele tinha ouvido.
Nunca mais o homem voltou a ir à pesca na noite da Senhora das Candeias e, durante ainda muitos anos, as pessoas da Calheta tiveram o costume de se afastar da costa na noite dos labregos.