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No início do povoamento da Ilha das Flores, o monte que encima a Vila de Santa Cruz estava pejado de silvas, algumas já com troncos como punhos, de tantos anos bravios.
Não havia ninguém que se aventurasse a penetrar ali, tal a braveza da monda. Assim, inculto e agreste, permaneceu muitos anos.
Toda a encosta até abaixo era um emaranhado de silvas, cobrindo o chão onde algumas faias tristes e raquíticas teimavam em crescer.
Nesse tempo remoto, já os Frades Franciscanos viviam no Convento de São Boaventura, com a sua igreja anexa, onde está instalado o Museu das Flores. Por opção, levavam uma vida miserável, jejuando e rezando. Ajudavam o povo sem contrapartidas.
Um dia, vendo muita gente passando fome por falta de terrenos cultiváveis, lembraram-se de serem eles próprios a desbravar aquele monte bravio que todos os dias avistavam, a fim de criar terras lavradias da sua grande encosta para o cultivo do trigo. E mal o pensaram, logo começaram a árdua labuta.
Do erguer do Sol ao alpardecer, com foices roçadoiras e enxadas, trabalhavam sem parar.
Quando o dia começava a despedir-se, exaustos e extenuados, ainda conseguiam reunir forças para cortar dois ramos de faia: amarravam-nos em cruz e erguiam-nos no lugar onde tinham terminado a tarefa do dia. Era o símbolo do seu sacrifício, à semelhança do que fizera Jesus no Monte Calvário.
Mas o monte era extenso demais para braços tão escassos. Contudo, os Frades não desistiam. Semanas, meses, anos, diariamente trabalhavam de sol a sol. Atrás de si, lindas terras iam surgindo.
Ao fim   de   sete   anos, estava toda a encosta desbravada. Todo aquele monte se orgulhava da sua nova imagem. Da Vila, agora avistavam-se as muitas cruzes ao céu erguidas. Passou o povo a chamar-lhe Monte das Cruzes. Durante muitos anos foi local de cultura de trigo, fartura para tanta gente. Depois, fizeram pastagens, mais tarde divididas por bardos de hortênsias, intensamente floridas todas as primaveras.
As cruzes, essas, desapareceram com o desfazer dos anos. O nome ficou para sempre - Monte das Cruzes. O Museu ainda guarda as velhas foices, muito puídas de tal árduo trabalho.
O símbolo da cruz ainda hoje se mantém na heráldica da Freguesia de Santa Cruz das Flores, testemunhando, no brasão da Câmara Municipal, o sacrifício daqueles frades laboriosos.